"Eu sou porque nós somos": para uma abordagem psicanalítica sobre o partido político
- Núcleo Observando o Sul
- 29 de abr. de 2021
- 7 min de leitura
Edson Mendes Nunes Junior [1]
Luan Cardoso Ferreira [2]
Como conceito, o partido político está em constante modificação, de acordo com as particularidades de cada momento histórico e a concretude social na qual se encontra e atua. A pergunta sobre o que seria um partido, portanto, já tentou ser solucionada de diversas formas. Ao longo do tempo, a ciência política canônica vem apresentando respostas que se pretendem mais ou menos diferentes, mas que, no entanto, assumem um conteúdo funcionalista que as aproxima: partidos seriam as formas, por excelência, de representação da sociedade civil na política moderna, existindo na qualidade de porta-vozes para a expressão institucional-republicana de interesses e que assumem o objetivo de evitar conflitos diretos (em razão, portanto, de certa coesão social).
Outro dogma constantemente repetido por cientistas políticos ao falarem sobre partidos é a velha concepção do fascista italiano Robert Michels[3], que, em 1911, propôs uma concepção de forma-partido normalizadora da estruturação oligárquica – sua “lei de ferro das oligarquias” –, um cânone reproduzido como lei natural das organizações políticas. É uma interpretação que há tempos extrapola o campo da direita, encontrando eco em determinadas posições na esquerda até a contemporaneidade – como a rejeição em absoluto à atividade partidária (associando-a a um “burocratismo” inescapável), numa posição que Lênin chamou de “esquerdista” (significante com sentido bem diferente daquele utilizado pelo senso comum hoje).
Por outro lado, uma concepção de partido proposta por outro italiano, antifascista e comunista – que, além de contemporâneo, foi grande crítico de Michels e dos elitistas em geral –, não assumiu prestígio similar; falamos de Antonio Gramsci. Este intelectual entende que tomar partido desde a posição das classes subalternas significa historicizar justamente aquilo que o conservadorismo capitalista naturaliza: no caso da organização política, isto significa entender que, longe de ser uma “lei de ferro” (universalmente eterna), a dominação “oligárquica” tem sua existência historicamente determinada pela luta social. Se, de um lado, isto significa buscar em processos materiais as razões do burocratismo (em posições de profissionalização, mesquinharia, oportunismo e cooptação, por exemplo), de outro, a reflexão do autor concebe a possibilidade de existir um modelo alternativo para a estruturação partidária, cuja premissa é o questionamento da divisão entre dominantes e dominados desde uma primazia das escolhas de uma coletividade comum.
Partindo desse debate, faz-se necessário entender algumas das camadas que caracterizam a concepção gramsciana[4] sobre este partido estruturado não-burocraticamente, este “intelectual coletivo”. A esta forma, o pensador (resgatando Lênin) chamou “centralismo democrático”, o nome de uma autoridade política cuja unidade (indeterminada)[5] é produzida pelas instâncias coletivas de tomada de decisão.
Aqui, a relação entre o partido e o povo não pode ser compreendida dentro de uma lógica estática de sujeito-objeto, mas a partir de uma troca dinâmica em que, mediados por uma linguagem comum, ambos tornam-se agentes transformadores de sua realidade concreta e de si mesmos. De nossa parte, então, o que propomos como diferencial argumentativo é uma ênfase na dimensão dialógica desta estrutura, motivo pelo qual não hesitamos em recorrer ao auxílio teórico da psicanálise para nossa reflexão – campo que, desde nosso olhar, ensina a pensar em dinâmicas subversivas de abertura às criatividades múltiplas.
Nesse sentido, preliminarmente, entendemos que quando Lênin[6] falou da necessidade de algo “de fora” da economia para se buscar alguma “conscientização” (a necessidade da política), ele apontou um processo fundamental: o ir além do imediatismo (a circularidade econômica) por meio do ato disruptivo de enquadrar-se desde outra perspectiva, pela tomada de outro olhar (crítico e histórico) sobre a própria realidade social. Além disso, para o pensador, este trabalho de mediação política (“de fora”) é entendido como necessariamente construído sob a forma coletiva do partido. Gramsci rememora esta dinâmica leninista ao falar da necessidade de elevação política das classes subalternas ao papel de “intelectuais” (organizadores e dirigentes da própria luta), dando particular destaque para a maneira como este processo só pode ser dialógico, partindo dos significantes que circulam nas ideologias e nos discursos fragmentados do senso comum – em síntese, um processo que só pode existir como “unidade” entre “espontaneidade” e “direção consciente”.
O filósofo Slavoj Žižek[7] parte deste debate clássico da política revolucionária para aproximar a atividade dupla do laço partidário – olhar disruptivo + mediação coletiva – ao trabalho realizado na relação sujeito/psicanalista: ambos produziriam um modelo diferenciado de saber, cuja legitimidade consiste em ter suas raízes na coletividade e em dirigir-se à emancipação – ou seja, à libertação das amarras identitárias que o antagonismo (subjetivo ou social) tende a naturalizar fantasiosamente. Nesse sentido, a reflexão zizekiana a respeito do filme Eles vivem (de John Carpenter) pode ser esclarecedora: o tamponamento ideológico não deve ser entendido como um óculos que nos faz ver o mundo de maneira invertida, pois na verdade é nosso próprio olhar imediato/espontâneo sobre a experiência que já é ilusório; desta maneira, a crítica ideológica (ou politização) não pode ser compreendida como um retirar de óculos, e sim como seu contrário (colocar os óculos), permitindo olhar a própria realidade social desde um paradigma diferenciado. Haveria, portanto, a necessidade de mediação desde a externalidade – um laço ao Outro, uma incidência “de fora” – para ser possível desnaturalizar as estruturas de dominação; e tanto o partido quanto o psicanalista cumpririam este papel em seus respectivos campos. Objetivamente, aproximamos a estrutura do trabalho psicanalítico à estrutura de trabalho partidário, entendendo que, assim como num setting analítico o reconhecimento de uma nova percepção sobre si depende do envolvimento dialógico-coletivo num sentido historicizante, a perspectiva da politização também o depende.
É partindo desta aproximação que sugerimos a possibilidade de se reconhecer dinâmicas transferenciais no laço político-partidário – um argumento já sugerido por Slavoj Žižek, Jodi Dean[8], Wilhelm Reich[9] e pelo próprio Sigmund Freud[10]. Um desenrolar importante, dentre outros, desta ideia consiste em reconhecer no engajamento partidário um processo de suposição de saber ao partido sobre a verdade do desejo (político, mas não só) dos sujeitos. Estes últimos, então, dirigiriam suas demandas materiais e espirituais a tal Outro, na expectativa de receberem uma resposta pronta para solucionar o sofrimento. No entanto, a questão diferencial – como nos lembra Lacan[11] ao falar do discurso psicanalítico –, é que para o laço assumir sua potência subversiva, a relação não pode ser limitada ao modelo dogmático e paternalista da maestria: o diferencial emancipatório só pode advir de uma posição dupla de esvaziamento de si e convocação do sujeito à atividade elaborativa. A “autoridade” desta forma política, portanto, tem por premissa uma operação de autodeterminação dos grupos socialmente “excluídos”[12].
Neste paradigma, a posição do partido – tal qual a do analista – é a de servir como suporte para a corporificação do desejo, oferecendo um espaço transferencial externo por meio do qual as classes subalternas possam elaborar uma autorreflexão coletiva sobre si. O partido existiria, portanto, não como um sujeito pronto, ativo e criador autônomo de um processo transformador na sociedade, e nem como mero instrumento passivo da luta política: ele sustentaria uma oportunidade de abertura disruptiva, a possibilidade de se construir histórico-criticamente um outro olhar por meio de trocas significantes e afetivas – mobilizando dinâmicas dialógicas marcadas pelo igualitarismo de uma comunidade de camaradas. Por isso, falamos tanto do partido quanto do povo enquanto sujeitos barrados e não detentores do saber absoluto, sujeitos que constituem e que são constituídos politicamente na busca de respostas coletivas aos “que fazeres” da história.
A construção propositiva que se opera nesta dinâmica partidária assume a forma de um “novo significante-mestre”[13], cuja novidade consiste não apenas em representar uma concepção de mundo alternativa para a estrutura social, mas também por ter sua autoridade legitimada desde uma lógica comunal de base – diferindo sua maestria, portanto, do dogmatismo tradicional. Então, tal significante-mestre sustentaria um outro paradigma de existência para a coletividade, num laço transferencial que o filósofo Alain Badiou[14] interpretou enquanto o estabelecimento do lugar de uma “verdade política” que serve de referência para a “subjetivação” do ser numa dada posição do Real do antagonismo histórico. Talvez pela sua compreensão da relevância de aspectos subjetivos na política, o próprio Gramsci não hesitou em falar da relação partidária tal qual a operação de uma “fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar sua vontade coletiva”[15].
Portanto, desde estas discussões, entendemos que tendências de antipartidarismo na contemporaneidade não podem deixar de se encontrar lado a lado a graus variados de individualismo e de resignação ideológica ao capitalismo neoliberal. Com o avanço dos projetos de ofensiva da classe dominante, a associação dos subalternos na luta por reconhecimento precisa ser deturpada – sendo a “incorporação” a um “Sujeito” político coletivo (a fusão do “eu” ao “nós” da coletividade partidária) parte fundamental nesta luta, e, por isso, uma iniciativa ameaçadora ao status quo. Desde o presente texto, portanto, pensamos num conceito de partido entendido como desafiador e denunciador da ordem hegemônica, dotado de uma capacidade estimuladora para a construção propositiva de projetos transformativos em comum.
[1] Doutorando em ciência política pela Universidade Federal Fluminense. Email: edsonmendes@id.uff.br.
[2] Mestre em ciência política pela Universidade Federal Fluminense. Email: ferreira.luancardoso@gmail.com.
[3] MICHELS, Robert. Sociologia dos Partidos Políticos. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1982.
[4] GRAMSCI, A. Cadernos do cárcere volume 3. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, ed. 9, 2019.
[5] Segundo Clarisse Gurgel, a “unidade indeterminada” deste tipo de forma partidária significa a admissão da “conformação de um uno, ainda que sujeito a contingências a partir dos diferentes atores que o compõem, que o disputam e com quem ele se articula” (p. 311, in: GURGEL. Ação performática: sintoma de uma crise na esquerda. Marx e o Marxismo, v. 5, n. 9, p. 300-321, 2017).
[6] LÊNIN, Vladimir. Que fazer? In: ______. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, v. 1, 1979/1902, p. 79-214.
[7] ŽIŽEK, Slavoj. Posfácio: A escolha de Lenin. In: ______. Às portas da revolução: escritos de Lênin de 1917 (São Paulo: Boitempo, 1ª ed. eletrônica, 2011. p. 133-244); ______. Menos que nada: Hegel e a sombra do materialismo dialético (São Paulo: Boitempo, 2013).
[8] DEAN, Jodi. Crowds and Party. Londres: Verso, 2016.
[9] REICH, Wilhelm. O que é a consciência de classe?. Porto: Textos Exemplares 6, 1976/1934.
[10] Freud, em Psicologia de grupo e análise do eu (Rio de Janeiro: Imago, 1987/1921) entende que a dinâmica libidinal de um sujeito coletivo se assemelha à de um sujeito singular – argumento que o leva a interpretar psicanaliticamente relações com instituições, organizações e líderes políticos (em termos de relação objetal, identificação, idealização e hipnose; no que incluímos também a transferência). Daí entendemos, então, uma possibilidade de abertura da teoria freudiana à reflexão sobre os partidos.
[11] LACAN, Jacques. O seminário livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1992/1969-1970.
[12] CERQUEIRA FILHO, Gisálio. Édipo e Excesso: reflexões sobre Lei e política. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2002.
[13] ŽIŽEK, 2013.
[14] BADIOU, Alain. A ideia do comunismo. In: ______. A hipótese comunista. São Paulo: Boitempo, 2012, p. 129-148.
[15] GRAMSCI, 2019, p. 14.





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