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Imaginação e criatividade no romance como obra de arte.

  • Núcleo Observando o Sul
  • 4 de fev. de 2021
  • 5 min de leitura

Atualizado: 17 de mar. de 2021

Gisálio Cerqueira Filho


Neste de momento de colapso da saúde

no Amazonas, presto homenagem

ao Dr. Silvério Tundis in memorian.

referência da psiquiatria no Brasil

e na saúde coletiva em Manaus.


Para falar sobre o escritor Silviano Santigo, nascido em Formiga, M.G, 84 anos, (nasceu aos 29/09/1936), que já nos havia brindado com vasta obra criativa, e agora surge com Fisiologia da Composição, Recife, Editora Sepe, 2020). Uma obra cativante e vigorosa, diríamos até mesmo audaciosa, tal o manejo que tem da literatura em estudo e da metodologia transdisciplinar carregada de erudição histórica, mas sem perder de vista o cotidiano e especialmente uma rica perspectiva estética expressiva.

“Silviano Santiago é sempre muito original”, comentávamos a quatro[1] uma ocasião conversando sobre a sua originalidade como escritor e cientista social, ao trabalhar o conceito de “retórica da verossimilhança” num dos artigos publicado na Revista Discursos Sediciosos, dirigida por Nilo Batista, logo no seu lançamento.

Anteriormente publicara Machado, Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2017, sobre o escritor Machado de Assis, mas especialmente nos últimos cinco anos de vida, morando viúvo no Cosme Velho, onde veio a falecer. Esse livro ganhou o Prêmio Jabuti de Melhor Romance de 2017, ano em que Silviano fez 80 anos. Ele recria o sofrimento nos últimos momentos da vida de Machado de Assis em romance criativo e audacioso. Um livro obrigatório para todos aqueles comprometidos a relação ethos & pathos, pois o autor, docente por vários anos no exterior, no Canadá (Toronto), nos EUA (Rutgers. Nova York, Buffalo, Indiana) e na Europa (Sorbonne, Paris, França); foi professor titular de Literatura na UFF tendo sido um pouco antes Professor de Literatura na PUC-RIO. O nosso colega do GESP [Grupo de Estudos sobre Subjetividade e Política - UFF] Gabriel Souza Cerqueira debruçou-se sobre o livro Machado em recente viagem a Itália e esteve em alguns lugares de referência evocados no romance. Disse-me pessoalmente que foi uma incrível experiência...

Tive a oportunidade de conviver à distância com Santiago e “hospedá-lo” com muita honra na minha própria obra. E também fui sempre próximo, pois que fora colega e amigo do meu orientador de Mestrado em Ciência Política no IUPERJ, José Nilo Tavares (1935-1997), ainda em Belo Horizonte e desde quando os dois eram jovens. Em certa oportunidade estivemos juntos na ABI (Associação Brasileira de Imprensa) prestando homenagem in memorian a Zé Nilo. Retiro texto lido na ocasião por Silviano:


“Ainda jovem e bem novo conheci o José Nilo em Belo Horizonte. Aos sábados à noite, frequentávamos o centro de Estudos Cinematográficos. Em salas de cinema improvisadas e itinerantes, um bando de amantes do cinema como arte víamos os clássicos da Cinemateca de São Paulo, emprestados pelo Paulo Emílio Salles Gomes e o Rudá, filho de Oswald de Andrade. Ao lado dos mais velhos e mais sábios como o Jacques do Prado Brandão, o Fritz Teixeira de Sales e o Cyro Siqueira discutíamos cinema. Os mais velhos e mais sábios programavam os sucessivos números da Revista de Cinema que encantou e transformou a cabecinha adolescente de Glauber Rocha, como ele me confessou certa tarde em Paris, na Livraria Maspero”. [2]


Silviano prima pela criatividade e rigor analítico. Em Fisiologia da Composição ele é ambicioso ao trabalhar a semelhança e diferença entre gênese e criação da obra (artística), mas reforçando a leitura do corpo como metáfora. Com vigor ele apresenta-nos uma investigação profunda sobre Graciliano Ramos e Machado, mas não fica restrito a eles. Não recusa, quando é o caso e ao analisar Esaú e Jacó demonstrar o “sobe e desce” social na sociedade brasileira tão desigual. Avança sem temor pela economia, sem ser economista ou sociólogo, armado do vocábulo “bacia das almas”, lugar comum em Machado de Assis. E assinala o “sobe e desce” da época do encilhamento. Vender e “comprar na bacia das almas”, expressão das mais populares que assinala o “sobe e desce” que marca a desigualdade social pós escravidão. A “bacia das almas”, diz Silviano se repetirá em 1929/30 (crack na Bolsa de N.Y.), em abril de 1964 e se repete em 2020/21, acentuando como, desde a colônia, a desigualdade entre cidadãs e cidadãos brasileiros. As lembranças vão e voltam, com flashforwards e flashbacks”, dois outros conceitos que já vinha utilizando na sua abordagem metodológica. Defende Machado com unhas e dentes, pois “Machado não é um político, no sentido partidário e estreito da palavra. Não compete a ele, enquanto romancista brasileiro na passagem do século XIX para o XX, definir conclusivamente o sentido da marcha e da conquista do poder... [3]

Todavia, interessa-lhe problematizar as questões de caráter social, econômico e político e humano (de subjetividade) ... O autor hospeda outros escritores variados e um deles é Edgar Allan Poe (Filosofia da composição, 1846) mas sempre incorporando o leitor, diversos outros personagens de sua lavra autoral que sobressaem positivamente ou negativamente no poder de marcha da Literatura e da Humanidade no Ocidente. Sobressaem então as ambivalências e contradições. Machado de Assis tem rara perspectiva histórica que podemos designar com Fernand Braudel como de “longa duração”, inclusive no que concerne a uma história socioeconômica que, profundamente injusta, reifica os males da escravidão posteriormente a abolição de 13 de maio de 1888. Vejamos como Santiago percebe esta longuíssima duração[4].


“Entre os tempos diferentes da história, a longa duração se apresenta como um personagem volumoso, complicado e muitas vezes inédito. Admiti-lo no coração do nosso ofício não será uma manobra simples, semelhante ao alargamento dos estudos e das curiosidades. Não se trata tampouco de uma escolha em que ele será o único favorecido. Aceitá-lo para o historiador, significa prestar-se a uma mudança de estilo e de atitude, a uma contravolta do pensamento e nova concepção de social. Trata de familiarizar-se com um tempo em câmara lenta, algumas vezes, à margem do que move”.

Sobretudo o livro Fisiologia da Composição, abre uma perspectiva inigualável para vivermos e pensarmos o futuro, para bem usar o isolamento social e a quarentena, neste mágico e, ao mesmo tempo, dramático momento histórico da pandemia covid-19. Xô melancolia ou depressão. Obrigado Silviano Santiago!


[1] Estávamos reunidos com Vera Malaguti, Gizlene Neder e Nilo Batista.


[2] Ver Santiago, Silviano. Mente adulta e paciente, publicado in COLUNA: Textos e homenagens a José Nilo Tavares (vários autores). Rio de Janeiro, Inverta, 2000, p. 37. A referência é preciosa. Em relação a Paulo Emílio, ver Cerqueira Filho, Gisálio. Textos Pré- póstumos: Paulo Emílio Salles Gomes revisitado e Borrmann, Ricardo & Ludmer, Luis. Caminhos e descaminhos na História do Cinema brasileiro: Rede Intelectual de Paulo Emílio Salles Gomes. Ambos artigos estão no livro recém lançado “Direito, Estudos Culturais e Sociabilidades Políticas”, Neder, Gizlene, Barcelos Ribeiro da Silva, Ana Paula e Roque Mendes Gomes. Jônatas (Orgs.) Rio de Janeiro: Ed.Autografia, 2020, 455 p. ISBN:978-65-5531-000-0


[3] Santiago, Silviano. “Fisiologia da Composição”, op. cit, p. 140.

[4] Santiago, Silviano. Op. cit. nota 73. Apud Braudel, Fernand. Histoire et Sciences Sociales: la longue durée (Annales, 1958).



 
 
 

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