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Laboratório Cidade e Poder - Trinta Anos (1992-2022)

  • Foto do escritor: NOS - Núcleo Observando do Sul
    NOS - Núcleo Observando do Sul
  • 13 de out. de 2022
  • 6 min de leitura




Gisálio Cerqueira Filho


É com muita alegria que desejo falar neste aniversário dos 30 Anos do Laboratório Cidade e Poder (LCP-UFF) e dirigir-me a todos os presentes, com o devido destaque para sua coordenadora exemplar Doutora Gizlene Neder. Faltando pouco para completar 77 anos de idade e comemorando 60 anos no magistério, dos quais 50 na universidade, eu preferi escrever a minha fala. A memória começa a claudicar, as lembranças mais remotas acabam se impondo. Por isso, escolhi uma viagem no meu despertar para tudo o que sou hoje, e quando sequer conhecia a brilhante historiadora e cientista política Gizlene, mais conhecida no Sul de Minas Gerais, como Lene ou Leninha. Na trilha seguida por Herch Moisés Nussveig, eminente cientista, físico laureado com o prêmio Max Born[1], Gizlene conseguiu implantar o LCP-UFF, misto de laboratório científico e locus coletivo interdisciplinar, onde se reúnem jovens e não tão jovens assim, no “afã pela metade” de conhecer e aspirar diminuir o sofrimento humano, como dizia Galilleu Galilei... E isto com razoável e fraterna soberania que, distante da burocracia e do “disse-me-disse” acadêmico, aqui se reúne para festejar os seus feitos nestas três últimas décadas. E eles não foram poucos: Várias orientações de mestrado, doutorado e pós-doc. por este Brasil afora e no exterior. A articulação graduação e pós-graduação, a permanente escuta dos estudantes. O companheirismo e o mérito entrelaçados. Aí estão a dedicação permanente, a Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica fundada em Milão, o NOS-Núcleo Observando o Sul, que faz não esquecermos da Latinoamérica fraterna da qual fazemos parte. As pesquisas, ah! quantas e quantas láureas e avanços reconhecidos pela CAPES, CNPq, FAPERJ. Na Biblioteca Nacional de Portugal, Fundação Gulbenkian em Lisboa, na Fundação Luso-brasileira para o Desenvolvimento dos Povos de Língua Portuguesa, na Universidade de Bremem (Alemanha), pelo Governo de Espanha, o País Basco, a Universidade de Sofia, no Japão, para citar apenas algumas instituições.

Mas vamos à lembrança da viagem, a primeira de longo curso e na minha juventude, à qual me referi quando lecionava no CenFI (Centro de Formação Intercultural), em Petrópolis. Trabalhávamos com a inculturação cultural de missionários estrangeiros católicos que vinham trabalhar em diversas prelazias do Brasil. O tema poderia ser assim definido: “Processos históricos de circulação de ideias e apropriação cultural”. Tínhamos contato com o Centro de Cuernavaca, México, muito aprendemos com o pensador Ivan Illich, que por seu turno foi influenciado por Paulo Freire, entre outros. Trabalhei com o monsenhor Gérard Cambron (veio a ser Bispo de Cheerbroke, província de Québec, Canadá) e que estudou a questão da terra no Maranhão, onde também atuou o pesquisador Maurício Vinhas de Queirós da Universidade do Brasil (FNFi). O diretor Prof. Celso Pedro da Silva era incansável na recepção cordial dos nossos alunos. A viagem foi preparada para avaliar o resultado do nosso trabalho, particularmente na Amazônia, no município de Urucará e seria uma experiência incrível que me preparou para os futuros trabalhos no LCP-UFF, hoje tão festejado... Também muito aprendi com o meu aluno Pedro Casaldáliga, mais tarde Bispo de São Félix do Araguaia, Mato Grosso.

A ideia era fazer de ônibus Rio – Belém com uma parada breve em Brasília. Foi uma viagem longa, mas nunca um fardo. Ansiosos em todas as paradas, chegamos, por fim, a Belém do Pará. Antes, o motorista parou num riacho e falou: estamos quase chegando; “é para tomar um banho rápido e cada qual se arrume do melhor jeito possível”. Muita risada e logo ocupamos um pequeno hotel na capital do Pará. Após alguns dias em Belém, tratamos de ver com seria a viagem para Manaus. Mas, francamente o que vimos, sobretudo o amontoado de redes coloridas, as muitas pessoas e a velha embarcação não nos deu firmeza. Trocamos pela viagem aérea e voamos para Manaus depois de curtir de detalhadamente o Teatro Amazonas, de estilo “renascentista eclético”, bem no sítio histórico de Manaus. Ali retomamos nosso plano: iríamos para Urucará encontrarmo-nos com dois ex-alunos holandeses: o primeiro, um expert em agricultura e interessado na canalização da água no município; já o segundo estava focado na política sanitária e nas doenças mais corriqueiras por lá. Antes, tivemos que viajar de ônibus mais sete horas para atingir Itacoatiara e finalmente prepararmo-nos para a viagem fluvial de lá para Urucará numa lancha voadora que, pilotada, pelo jovem missionário holandês nos levaria finalmente ao município onde passaria alguns dias. Foram experiências que me fizeram enquanto cientista social e para sempre. Todavia, o mais interessante foi a viagem na referida lancha pelo Rio Amazonas. Viajaríamos quase a noite toda pois saímos no meio da tarde para uma viagem de seis horas. Era uma lancha a motor não muito nova, mas dava certa segurança. E não pensei demais no que estaria por vir. Certamente a grandeza do Amazonas, quando não se divisa de uma margem a outra... Mas não poderia imaginar muito mais do que alguns troncos de árvore que poderiam bater na embarcação. Nunca veio à minha mente que o motor poderia falhar, e por algumas vezes, exigindo perícia do nosso piloto holandês. Éramos cinco passageiros e a cada dificuldade vivida me subia um frio na espinha, mas tudo mudo mudava quando íamos pelos igarapés. São cursos d'água amazônicos de ordem diversa (primeira, segunda ou terceira), constituídos por longos braços de rio ou canal. Existindo em abundância na Bacia amazônica, e caracterizando-se por não serem profundos por correrem quase no interior da mata eles ofereciam uma oportunidade ímpar de apreciar a paisagem às vezes deitado numa larga rede, às vezes de pé na lancha. Quando porém, ela ganhava velocidade e era eventualmente albaroada por madeiras (ou árvores) que sobem ou descem o grande rio, tudo me trazia medo e terror. Nós havíamos partido por volta das 16 horas de um dia bem claro, porém por volta das 18:00 horas começou o anoitecer. Tudo correndo bem, nossa chegada estava prevista para 22:00 horas. Mas chegamos por volta das quatro da manhã, pois tivemos alguns pequenos problemas com o motor da lancha. Desde o total anoitecer até a chegada a Urucará foram as horas mais incríveis que eu iria viver. E mais, era uma noite sem lua. Havia uma sobreposição espetacular entre o grande Amazonas, a floresta potente, com o céu, uma completa escuridão. Não era possível distinguir um do outro e o medo tomou conta de mim. O missionário holandês, dublê de piloto naval pediu silêncio com grande autoridade e disse-nos que tudo correria bem. O farol da lancha iluminava não mais de cinco metros à frente e ele acentuou que naquele contexto ele teria que dirigi-la com total empenho e atenção triplicada. O medo parecia gelar por dentro, duas ou três vezes mergulhei... na rede e fiz uma retrospectiva da minha jovem vida. Vez ou outra ia à beira da voadora e continuava sem nada distinguir.

O firmamento celeste, mata e floresta, o rio majestoso, habitantes humanos e animais, tudo se integrava como se numa única e enorme página. Os súbitos e fortes sacolejos por causa das madeiras soltas na correnteza não cessavam.

Enfim chegamos, eu aceitei segurar na ponta de uma enorme vara que me foi oferecida por um pescador e me serviu de “corrimão de segurança” para descer no “portinho” de Urucará. Não arrisquei nem me equilibrar numa tora de madeira nem nadar ate até a terra deixando as malas para os “carregadores”. O que viria e o que eu veria a partir da aí: a vida sofrida de homens, mulheres e crianças, a humanidade de indígenas semiaculturados, a diversidade do trabalho que meus ex-alunos realizavam naquela região: destaque para a fraternidade, visão coletiva, presentes naquele povoado. Quanta aprendizagem. Lições para a vida, visão vivida do Brasil real, a questão dos direitos indígenas. o meio-ambiente, a devastação florestal; a desigualdade social, as riquezas do Brasil, etc... Descobri o trabalho de um que lutava para fazer chegar o que lá se plantava sem tantos intermediários à venda final; o trabalho de outro que canalizava a água em tubos de madeira, porque os moradores não aceitavam de modo algum os canos metálicos, de alumínio ou o que que fosse similar... a grande liderança da quela comunidade era uma jovem senhora que fazia os partos daquelas mulheres que estavam para parir. Inquirida, sobre qual presente gostaria de ganhar no Natal que estava por vir, respondeu: “umas botas compridas e de cor para que eu pudesse realizar melhor o meu trabalho, quando vou atender nas casas construídas sobre as águas dos rios ou igarapés daquela região...” Nada exclusivo para si, tudo para reverter para o bem coletivo”. Uma lição e tanto! Questão de ofício.

Estava dando os meus primeiros e firmes passos para a carreira de cientista social hoje atuando no Laboratório Cidade e Poder-UFF sem perder de vista as complexidades e o sofrimento dos nossos irmãos brasileiros.[2] Obrigado!

[1] O Prêmio Max Born é concedido pela Optical Society para "contribuições de destaque na óptica ondulatória", nomeado em memória de Max Born. [2] Para melhor compreensão da carreira do autor sugere-se a leitura de (a) “Cultura e Resiliência”, Rio de Janeiro: Editora Lúmen Juris, 2019. (b) “Memória de uma vida”, Rio de Janeiro: Editora Revan, 2011; além da vasta obra publicada no país e no exterior.


 
 
 

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