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O Afeto e o Poder: Metodologia pluridisciplinar e análise do instante político com Jacques Lacan

  • Núcleo Observando o Sul
  • 15 de set. de 2021
  • 21 min de leitura

Atualizado: 2 de nov. de 2021



Gisálio Cerqueira Filho [1]

Gizlene Neder [2]


Resumo

O artigo realiza uma abordagem metodológica aplicada, visando subsídios para análises da conjuntura política, vivida com intensidade e velocidade no tempo presente. Adotamos um paradigma pluridisciplinar [Ciência Política, História, Economia, Filosofia, Estudos Culturais, Psicanálise, Cultura Jurídica, Sociologia, Literatura], e realizamos uma redução da temporalidade histórica através de uma atualização constante do momento político, bem como das pautas inscritas na microfísica do poder. Busca-se uma prática teórica e interpretativa sobre o sofrimento (pathos), o medo e o dano ambiental inscritos na mais-valia absoluta (Marx) e no mais-gozar (Lacan) emergidas de situações de perversão manifestas no descaso e no extermínio.

Palavras-chaves: Paradigma pluridisciplinar; análise de conjuntura política; perversão.


Abstract

The article aims at an applied methodological approach, focusing subsidies for analyzes of the political conjuncture, lived with intensity and speed in the present time. We adopted a pluridisciplinary paradigm [Political Science, History, Economics, Philosophy, Cultural Studies, Psychoanalysis, Legal Culture, Sociology, Literature] and carried out a reduction of historical temporality wiht a constant updating of the political moment, as well as of the power. We seek a theoretical and interpretative practice on suffering (pathos), fear and environmental damage inscribed in the absolute added value (Marx) and in the more-enjoy (Lacan) emerged from situations of perversion manifest in neglect and extermination.

Keywords: Pluridisciplinary paradigm; analysis of political conjuncture; perversion.


Resumen

El artículo realiza un enfoque metodológico aplicado, visando subsidios para análisis de la coyuntura política, vivida con intensidad y velocidad en el tiempo presente. Adotamos um paradigma pluridisciplinar (Ciencia Politica, História, Economia Filosofia, Estudios Culturales, Psicanálise, Cultura Jurídica, Sociologia, Literatura). Realizamos uma reducción de la temporalidade histórica con una actualización constante del momento político, así como de las pautas inscritas em la microfísica del poder. Se busca una práctica teórica e interpretativa sobre el sufrimiento (pathos), el miedo y el daño ambiental inscritos en la plusvalía absoluta (Marx) y en el más-gozar (Lacan) surgidas de situaciones de perversión manifiestas en el descuido y en el exterminio.

Palabras claves: Paradigma pluridisciplinar; análisis de coyuntura política; perversión.


Breve Introdução

O objetivo deste artigo é desenvolver, a partir de um paradigma pluridisciplinar [Ciência Política, História, Economia, Filosofia, Estudos Culturais, Psicanálise, Cultura Jurídica, Sociologia, Literatura] uma reflexão metodológica a ser aplicada em análises do “instante político”, vivido com intensidade e velocidade no tempo presente.

Aqui há uma redução da temporalidade histórica e uma atualização constante do momento político, bem como das pautas inscritas na microfísica do poder, com destaque para a realidade brasileira, mas sem perder de vista as relações internacionais.

Pretende-se uma prática teórica e interpretativa visando um saber com acento estético (literatura), porém científico assentado em estudos da cultura, da história política, estética, direito, literatura, inclusive jurídica – canônicas e não canônicas – ainda e quando tais expressões se pretendam distantes daquelas religiosas, dogmáticas, fundamentalistas, para significar apenas dominantes ou hegemônica.


Entre brumas, chega-se a Brumadinho e a “mais-valia”

O subtítulo refere-se à ocorrência fatídica na Mina do Feijão, na área metropolitana da Grande Belo Horizonte, pertencente a Companhia Vale do Rio Doce, comumente nomeada de “Vale”. Trata-se de barragem de rejeitos da exploração do minério de ferro que foi rompida no dia 26 de janeiro de 2019.

Se bruma significa nevoeiro. nebulosidade causada por gotículas de água que ficam suspensas e diminuem a visibilidade, Brumadinho, nome poético para o município mineiro da Grande Belo Horizonte (BH), alude à cerração e névoa da pequena municipalidade, de 39.520 habitantes, segundo o Censo do IBGE de 2018.

Ocorrência fatídica sim, pois que carrega consigo a profecia embutida da desgraça e tragédia, enfim ocorridas; ainda que diante dos terríveis acontecimentos de Mariana, há apenas três anos, quando também uma outra barragem (a de Bento Rodrigues – também em Minas Gerais), esta administrada pela SAMARCO (joint venture com a participação da Vale e da anglo-australiana BHP Billiton), se rompeu. Agora com a Mina do Feijão o rompimento da barragem, bem próxima do Rio Paraopeba, repete o sintoma do descaso à vida e da exploração brutal do trabalho pelas condições em que ele é exercido. O Vale da Morte, como está sendo chamado. deixa de ser doce para torna-se amargo, pois que o rio afetado pelo rompimento da barragem de Bento Rodrigues atingiu o vale do Rio Doce.

Em 31 de janeiro de 2019, o número de resgates havia ultrapassado a 200 operações, consideradas, nas circunstâncias, “bem-sucedidas”; a grande maioria composta de funcionários ou trabalhadores terceirizados da Vale. (Castro, 2019). Todavia, em 04 de fevereiro de 2019 e segundo a atualização das equipes de buscas, 121 corpos foram encontrados, dos quais 114 foram identificados. O número de pessoas desaparecidas alcança 205.[3] Em 08 de fevereiro de 2019 eram 165 os mortos e 167 os desaparecidos.[4]

Após o anúncio da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD) de que vai desativar todas as barragens que utilizam a mesma metodologia denominada “a montante” para depósito de rejeitos como a de Brumadinho, não apenas os comentários na BOVESPA foram no sentido de que isso acarretaria uma diminuição de 10% na produção da mineradora maior fornecedora do produto mundialmente falando, quanto os preços dispararam e alcançaram US$87,68, cotação recorde nos últimos 17 meses. Em ocorrendo uma queda na produção da Vale em torno de 10% já se fala que o preço do minério subiria correspondentes 10%. O mercado se movimenta... Alguns números para registro observados até 30 de janeiro de 2019.

a) na China, Bolsa de Dalian, a tonelada de minério de ferro no contrato mais negociado bateu US$87,42.

b) na Austrália, Bolsa de Sidney, as ações da Rio Tinto subiram 7,35%.

c) no Brasil, na BOVESPA, as ações da citada BHP elevaram-se em 4,9% e os da própria Vale subiram cerca de 9%, embora tivessem caído 24% desde o registro pela Bolsa de New York em 25/01/1919.Parte superior do formulário

Fica assim evocada a articulação e a dança do capital financeiro no cenário das mortes aviltantes ocorridas em Brumadinho.

O poema de Carlos Drummond de Andrade, de 1984, é expressivo e a um só tempo pungente no garimpo “da mais-valia” do modo de produção capitalista no Brasil, especialmente na área de mineração e em particular em Minas Gerais, uma das áreas mais ricas em minério de ferro em todo o planeta.

- Lira Itabirana -

I

O Rio? É doce.

A Vale? Amarga.

Ai, antes fosse

Mais leve a carga.

II

Entre estatais

E multinacionais,

Quantos ais!

III

A dívida interna.

A dívida externa

A dívida eterna.

IV

Quantas toneladas exportamos

De ferro?

Quantas lágrimas disfarçamos

Sem berro?


O grito contido, travado, ecoa nas entranhas e vísceras de todos os atingidos e vítimas do acontecimento. Todavia, o que está oculto na expressão fatídica é menos o destino ou o vaticínio dos deuses e mais o que Marx (1867) chamou de “mais-valia absoluta”, referente ao trabalho e sua valorização; no caso, desvalorização.

Ora, o Brasil é conhecido na OIT (Organização Internacional do Trabalho) pela exploração intensiva do trabalho, inclusive com trabalho escravo, e incluindo altos índices para caracterizar desigualdade social e pobreza[5]. Isto além do descaso presente na legislação em favor do meio-ambiente e da preservação da Natureza, sem falar na continuada defesa da flexibilização das leis existentes. Descobre-se agora, ao menos a imprensa dá divulgação, do vigoroso lobby de deputados e senadores tanto na Câmara quando no Senado, em favor das mineradoras, brasileiras ou não, atuando no país. Digladiam-se, pois, utopia versus distopia e esta última parece estar ganhando a batalha (Harvey, 1992). O destaque é o caráter selvagem do capitalismo no tempo presente, com um refinamento de interpretações sobre a condição colonial de áreas afetadas pelo imperialismo e para a voracidade do Capital.

Também no que concerne ao dano ambiental (Davis, 2002), pois já dizia João Guimarães Rosa em seu Grande Sertão: Veredas “(...) a cachoeira é barranco de chão, e a água retombando por ele; o senhor consome essa água ou se desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...” (Azevedo, 2019, p. 9; Cerqueira Filho, 2018).[6] É espantoso o rastro de ameaças que espreita animais (o lobo guará, a raposinha, o veado mateiro), aves (o beija-flor de gravata verde, a águia cinzenta), peixes (muitos ameaçados de extinção), algas e crustáceos da Bacia do Rio Paraoepeba...

De todo modo a mais-valia que vai interessar ao psicanalista possibilita boas reflexões. Quando Jacques Lacan aborda a sua própria leitura de Marx sobre este tema, ele diz que assim fez quando viajava de metrô para o trabalho no Hospital, por volta dos 20 anos de idade e evoca recordações de bons momentos, embora a questão da mais-valia absoluta, seja em si mesma lúgubre...


(...) Essa mais-valia, Marx a introduziu um pouco mais, um pouco mais-valia, por pouco não a introduzia, nem mais nem valia, lhes atrapalho – introduziu-a depois de um tempo em que assumiu assim um ar bonachão, no qual deu a palavra ao interessado, isto é, ao capitalista. Marx o deixou justificar a sua posição para o que era o tema da época, a saber, o serviço que o capitalista prestava ao homem que só tinha para seu trabalho um instrumento rudimentar, sua plaina, por colocar à disposição dele o torno e a fresa, graças aos quais o outro poderia fazer maravilhas, numa troca de bons serviços e até de serviços leais. Marx deu todo o tempo para que se desenvolvesse essa defesa, que não parecia outra coisa senão o mais honesto dos discursos e então apontou o personagem fantástico com quem ele se defrontava, o capitalista, ria”. (Lacan, 2003, p. 63)


Para Lacan aquele riso era um indício para o que Marx percebeu como a essência da mais-valia. E prossegue citando Marx...


Conversa fiada meu bom apóstolo, disse Marx ao capitalista. Transforma em serviço como te aprouver, essa disponibilização de quem trabalha, dos meios de produção de quem detentor. Mas o trabalho pelo qual o remunerarás, em função do torno e da fresa, não pagarás mais caro do que ele fazia com a plaina. Por intermédio da plaina ele garantia a sua subsistência. (Lacan, 2003, p. 63)

O que se pretende aqui é a conjugação do riso com a função radical de elisão da mais-valia, mas também do “a mais-gozar”. E por que é importante tal efeito de elisão? Diria, em função do efeito de (des)conhecimento, que vem na hora mesma do (re)conhecimento de que o truque bem sucedido da velação vem acompanhado da (re)velação “mágica” da mais-valia, e da homologia, como assinala Lacan, com a elisão característica que é constitutiva do pequeno objeto a. (Lacan, 2003, p. 63).


Gozo conforme Jacques Lacan e seus efeitos de poder

O gozo fálico corresponderia à energia dissipada durante a descarga parcial, tendo como efeito um alívio relativo e incompleto da tensão inconsciente. Essa categoria de gozo é chamada fálica porque o limite simbólico que abre e fecha este acesso à descarga é o falo.

A outra categoria, denominada por Lacan de “a mais-gozar”, corresponderia ao gozo que, em contrapartida, permanece recalcado no interior do sistema psíquico, e cuja saída é obstaculizada ou impedida pelo falo. O advérbio “mais” indica que a parcela de energia não descarregada, o gozo residual, é um excedente que aumenta constantemente a intensidade da tensão interna e que está profundamente ancorado nas variadas zonas erógenas do corpo, mas também nos seus orifícios – boca, ânus, vagina, canal peniano, olhos, ouvidos, nariz, etc. O impulso do desejo nasce nessas zonas e, em contrapartida, o “a mais-gozar” as estimula constantemente, mantendo-as num estado permanente de erotogenia.

A partir de Pascal e da série sequencial de Fibonacci, bem como do teorema de Gödel, Lacan nos conduz até a incompletude e inconsistência do grande Outro, dividido pelo significante e pelo pequeno objeto a. Para assim fazer ele anuncia que a “estrutura é o real”. (Lacan, 2008. p. 28)

Pois então, da última vez, que foi uma primeira, fiz referência a Marx, ao introduzir ao lado da (noção) de mais-valia, uma nova noção. Num primeiro tempo aproximei a relação dessas duas ideias como homológicas, com toda as reservas que esse termo comporta. A mais-valia, na língua original em que essa ideia foi, eu não diria nomeada pela primeira vez, mas descoberta em sua função essencial, é chamada de Mehwert [em português ‘valor acrescentado’]. Escrevi a palavra no quadro porque Deus sabe o que aconteceria se eu só fizesse pronunciá-la diante do que tenho como plateia, e especialmente em matéria de psicanalistas, quando eles são recrutados entre o que é chamado, como seres de natureza ou de hereditariedade, de agentes duplos. Não tardariam a me dizer que se trata da Mãe verde [Mére vert] e que estou recaindo em trilhas batidas (...) É dessa maneira que há quem se sirva do meu isso fala para reintegrar o pretenso desejo obstinado do sujeito se reencontrar bem quentinho no ventre materno. Nessa mais-valia, portanto, prendi, superpus, pespeguei no avesso a ideia de mais-gozar [plus de jouir]. (Lacan, 2008. p. 29)


E por fim, a terceira categoria, o gozo do Outro, estado fundamentalmente hipotético e idealizado que corresponderia ao “gozo perfeito”, ou seja, se a tensão fosse totalmente descarregada, sem qualquer entrave ou limite. Por sua vez, esse gozo perfeito se encaixa na cultura adjetivada como tomista (permanência histórico-cultural de longa duração do pensamento de Santo Tomás de Aquino), ela própria concebida nos termos de família perfeita, direito perfeito, mercado perfeito, mãe perfeita, homem perfeito, pai perfeito, perfeita casada, etc. etc. (Neder, 2016 a).

Esse é o gozo que o sujeito supõe no Outro, sendo o próprio Outro igualmente um ser suposto. Esse estado ideal, esse ponto de felicidade absoluta e impossível no horizonte, assume diferentes imagens, variando conforme o ângulo em que seja situado.

Quando Jacques Lacan assim faz, ele toma uma certa distância da relação entre o simbólico e o imaginário presentes no Seminário XXII (R.S.I. 1974-1975), pois busca insistir na questão do Real, que não se confunde com realidade. Chegava mesmo a conclusão de que a homologia entre a economia política e a psicanálise, a partir das noções de “mais-valia” (Marx) e “mais-gozar” (Lacan), poderia permitir uma articulação entre a renúncia ao gozo pelo discurso e o efeito produzido teria um valor de falta por esta perda... Tal contradição, ambivalência ou, se preferirem, paradoxo das consequências, apontariam para um abrir as portas da psicanálise propriamente dita.

A entrada no sintoma de “mais-gozar” permitiria uma nova leitura da neurose e da perversão, pois ali onde uma (a neurose) põe a barra no significado do Outro, a outra (a perversão) tentaria fechar o buraco no Outro. As circunstâncias do sintoma de “mais-gozar” poderiam eventualmente estar ausentes; nesse caso, não se constituindo. O acesso ao sintoma do mais-de-gozar colocaria a barra no grande Outro a partir do significante e tal poderia não acontecer numa “época do Outro que não existe” (Recalcati, 2004, p. 12), enfatizado o paradigma da perversão em lugar dos paradigmas da neurose ou da psicose.

Os episódios de evidentes descaso e omissão relacionados às barragens “à montante” da Companhia Vale do Rio Doce expressariam então um “sintoma vazio” presente na perversão? E como ele, tantos outros vivenciados pela sociedade brasileira (mas não só) no tempo presente; uma verdadeira máquina de moer gente? Por balas perdidas, por danos ambientais, por genocídios... Levas incontáveis de emigrantes forçados, no Mediterrâneo e na América Central, deslocados e perseguidos pelas intervenções militares imperialistas em seus países de origem; tratados pela imprensa simplesmente como imigrantes pobres em busca de vida melhor na Europa e nos EUA... Sem uma nota sequer sobre os ataques militares franceses determinados pelo ex-presidente Sarkosy na Líbia; os ataques norte-americanos na Síria, para não falar da intervenção militar na guerra do Iraque liderada pelos EUA... Seria tudo isso provocado exclusivamente por embates religiosos-culturais? (Neder, 2003).


A questão do “a mais gozar” e a renúncia aos prazeres

O tema da renúncia aos prazeres e da abstinência sempre foi meta a ser atingida, em maior ou menor escala, pelos católicos romanos e, talvez, pelos cristãos ou outros campos religiosos. Foi alvo de inúmeros retiros, reflexões espirituais e com a expressão “sacrifício” (necessário para alcançar a salvação da alma) veio corroborar uma espécie de renúncia ao mais-gozar.

Ao referir-se ao objeto de estudo no Seminário XVI (08/01/1969), Lacan diz: “(...) nosso tema (sujet)... dá conta que cai no ponto crucial do campo psicanalítico, aquele do estatuto correto ao que acontece com o sujeito (sujet).” (Lacan, 2008, p. 97). Aqui, puxa-se um fio na busca de uma lógica matemática. A hipótese mais geral é a de que, assim como Von Neumann fala de resíduos matemáticos logicamente sustentáveis, Lacan sugere falar em resíduo(s), mesmo com certa resistência divergente, com que se designaria(m) a presença última e radical do sujeito, aqui percebido com o pequeno objeto a.

Mas nosso interesse está mais voltado para a proposição relacionada com o “excesso” de trabalho na mais-valia, vista na perspectiva do “excesso” de prazer no “a mais-gozar”. O que seria exatamente isto? Sobretudo quando falamos em o mal-estar da civilização. Onde estaria o bem-estar? No otium cum dignitate conforme Horácio? O doce far-niente contemplativo seria exatamente o que? Este seria o supremo bem-estar? Ou ele estaria nas pautas do buen vivir dos povos aymaras e quéchuas andinos (peruanos/bolivianos e outros)? (Taboada Terán, 1977)

Neste conjunto de indagações Lacan chega ao que designa como “aposta de Pascal”, uma proposição sobre a chamada “regra da partição” – na perspectiva de dividir equitativamente o dinheiro das apostas – e que está na origem da teoria matemática das probabilidades. A impressão que temos é que Lacan quer, na direção de circunscrever o pequeno objeto a, responder às seguintes indagações: a) como representar o efeito de perda? b) como medir o campo do Outro? c) Como o gozo nas suas dimensões e variações pode, inclusive no seu espectro de renúncia, ajudar na resposta às questões precedentes?

O autor pisa firme e é metódico. Diz que se vale das séries sequenciais do matemático italiano Fibonacci (1170 – 1250) conectando-as com a aposta de Pascal (1623 -1662). A nosso ver atira no que vê e, sem prejuízo de acertar este alvo, acerta também o que não vê. Mas o que Lacan não vê ou não quer ver em Pascal? Precisamente o fundamentalismo religioso e rigorista (Lacan chega a citar a palavra rigorismo, mas diz não ter interesse nisso) (Lacan, 2005). Para nós o que importa aqui é a contingência da ideologia (the grip of ideology) que está presente no formidável debate de ideias entre rigorismo (jansenistas) versus laxismo (jesuitistas), que avança, desde o século XVII, na discussão teológica sobre o sacramento da confissão e do perdão (Neder, 2016 b), e chega a ultrapassar o direito canônico desdobrando-se aparentemente sem limites para o campo jurídico, influenciando inclusive negativamente a tímida operação de laicização do direito quando enfrenta o direito natural, cuja crítica maior está no pioneirismo de nada mais, nada menos, que no pensamento crítico de Karl Marx, aquele pensador da “mais-valia” quando aborda a crítica à Filosofia do Direito (1843).

O jansenismo é uma doutrina religiosa inspirada nas ideias do Bispo de Ypres Cornelius Otto Jansenius. Blaise Pascal foi o mais importante e influente pensador jansenista. O caráter fundamentalista assentado na moral dogmática transbordou a par da política, para o direito. Com muitas apropriações do calvinismo, teve influência na Igreja Católica romana, na Bélgica e em França, nos séculos XVII e XVIII. Foi condenado pela Bula Ad Sacram (16/10/1656) assinada pelo Papa Alexandre VII. É conhecido pela defesa do pensamento de Santo Agostinho contra o tomismo (Santo Tomás) especialmente sobre o aristotelismo, da predestinação, e do livre arbítrio. Nem sempre se reconhece, na historiografia corrente, a influência de longa duração que o jansenismo exerceu nos países abrangidos pelo catolicismo romano nos séculos subsequentes XVIII e XIX, na França, como também na Península Ibérica e no Brasil. Isso porque desde o final do século XIX, no decurso da reforma religiosa católica iniciada no papado de Leão XIII, ocorreu uma deliberação pela afirmação neotomista, desta feita considerada uma filosofia moderna de corte tomista que procurou a superação (melhor dizer, supressão) da dissidência religiosa jansênica no interior do catolicismo romano; a negação, e o não reconhecimento, seguido de silenciamento, conduz as interpretações que esvaziam o lugar da teologia política e da espiritualidade jansênicas no processo histórico-social.

Retomemos, pois, Lacan que deseja imprimir certo rigor próprio da lógica matemática a partir da definição do “significante como o que representa um sujeito [S] para um outro significante [A]. Este significante diz é outro, o que simplesmente quer dizer que ele é significante. (LACAN, 2008, p. 177) O que caracteriza o significante [S] é a diferença, sua e que reside nos outros [A] por serem diferentes dele. Como ele diz: “se o A é 1 é preciso que inclua esse S, como representante do sujeito perante A.” (Idem) Nesse caso estamos diante de 1 que é unificador que define o campo do Outro [A].

Neste ponto devemos dar a palavra ao próprio Lacan quando se explica na sua retomada da aposta de Pascal.


(...) quando retomo o discurso de Freud para me basear no que ele descortinou, distingue-se essencialmente do discurso filosófico, por não desgrudar daquilo em que estamos presos e a que estamos comprometidos como diz Pascal. Bem mais do que se servir de um discurso para fixar no mundo sua lei e na história suas normas, ou vice-versa, ele se coloca nesse lugar em que o sujeito pensante percebe desde logo que só pode se reconhecer como efeito da linguagem. (Lacan, 2008, p. 157)

Lacan vai servir-se das posições do obsessivo e do histérico para formular a chamada lei do Outro.

Para o homem, na medida que ele tem que exercer a identificação com chamada função do Pai simbólico que é a única a satisfazer e é nisso que ela é mítica – a posição do gozo viril na conjunção sexual é o que se oferece no nível do natural. É a isso, muito precisamente que se chama ser o mestre/senhor. Isto esteve e continua muito suficientemente ao alcance de alguém. Pois bem, o obsessivo é aquele que recusa justamente tomar-se por mestre/senhor, porque frente aquilo de que se trata, a verdade do saber. O que importa é a relação de saber com o gozo. Desse saber, o que ele sabe é que ele não tem nada além do que resta da incidência primária de sua proibição, ou seja, o objeto a. Qualquer gozo só é pensável para ele como um tratado com o Outro, sempre imaginado por ele como um inteiro fundamental. Ele negocia com o Outro. O gozo só se autoriza, para ele, por um pagamento sempre renovado, num tonel das Donaides, nesse algo que nunca é igualado. É isso que faz das modalidades da dívida a única cerimônia em que ele encontra seu gozo. (Lacan, 2008, p. 324)


Em oposição ao obsessivo coloca-se a forma histérica como resposta aos impasses do gozo.

(...) é por isso que essa modalidade se encontra mais especialmente nas mulheres, caracteriza-se por não se tomar pela mulher; nessa aporia as coisas simplesmente se oferecem a ela, de maneira tão natural quanto para o homem, por ser a mulher, por desempenhar seu papel na conjunção sexual, na qual, naturalmente, ela tem uma boa participação. (...) ela promove o ponto no infinito do gozo como absoluto. Promove a castração no nível desse Nome-do-Pai simbólico, no lugar a partir do qual se coloca como querendo ser, no último instante, seu gozo. (Idem)


Estamos diante de uma suposta completude, ou seja, uma perfeição. “O que surgir como abertura ou hiância...não é outra coisa senão essa fronteira que o neurótico reinterroga, e que de fato, nada pode suturar, a fronteira que se abre entre fronteira e gozo”. (Idem) A articulação que Lacan realiza entre o 1 e o a e é o próprio Lacan que o diz “(...) não foi promovida por acaso e não está obsoleta. Esse modelo matemático não é nada além de uma série de números na qual, sob a condição de que inscrevamos a relação entre eles sob a forma de uma soma, a função do a conjuga-se com a simples repetição do 1.” (Idem)

1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, ...


A sequência em questão (de Fibonacci) tanto no sentido exemplificado quanto no sentido inverso, de um lado define a função de a; de outro aponta para um limite definido, o qual retomado, é um ponto de partida.

Reitera-se assim o que dizíamos na abertura deste texto: a incompletude e inconsistência do grande Outro, dividido pelo significante e pelo pequeno objeto a, na contramão de qualquer enunciado de “perfeição”. Perfeição, contudo, que está presente na concepção tomista.


Eros e Thânatos

A compreensão do Inconsciente passa necessariamente pelo dito “ele (o sujeito) não sabe que sabe”, que está presente, por um lado, em Sigmund Freud, no A Interpretação dos Sonhos (1972). Por outro lado, o “eles não sabem o que fazem, mas fazem” já numa perspectiva social ou coletiva foi abordado por Karl Marx (1974) e aprofundado na tese de doutorado de Slavoj Zizek (1992; 1997).

Assim, chamamos de “formações discursivas inconscientes” presentes no discurso político, ao que de inconsciente restou [sentir] sob a forma de afetos e emoções na ação política tal ou qual, impulsionada pelos interesses subjacentes e pelo pensamento [pensar] do sujeito historicamente constituído (“sujeito-suporte”) (Cerqueira Filho, 1982, p. 49-54). A condição para o acesso ao Inconsciente é a transferência e o amor que o constitui. (Lacan, 1982).

A fundação do humano e a sua precípua construção, se dá sob a linguagem – o discurso – que fixa e cristaliza os recursos desta linguagem que chamaremos de primeva: a língua materna. Esta é a descoberta freudiana que abre as portas para um saber original que é a Psicanálise (Freud, 1899).

Pierre Fedida (1934-2002) acrescentará, seguindo as pegadas de Freud e Lacan, que o humano se constituirá fundamentalmente no psicopatológico – e isto desde o nascimento – nomeando-se apropriadamente o saber psicanalítico de “Psicopatologia Fundamental”. Trata-se de abordagem metodológica radicalmente multidisciplinar, sem o abandono do método e da prática vinculados à clínica. Especialmente no processo de identificação, análise e produção de conhecimento sobre os afetos (de mais-gozar) presentes nos excessos de exploração do trabalho e em práticas de extermínio, em outras palavras, na matança e descaso pela vida e pela preservação ambiental. As brumas de Brumadinho constituem um sintoma a ser perscrutado para a interpretação da conjuntura política do instante político e suas imperfeições, melhor dizer, dos instantes políticos vivenciados e transformados em novos instantes.

Um dos maiores divulgadores do pensamento de Pierre Fédida no Brasil foi Manoel Tosta Berlinck (1937-2016), psicanalista e doutor em Sociologia pela Cornell University, EUA, que fundou a Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental (AUPPF) com sede em São Paulo. Trata-se de sociedade científica internacional que reúne professores universitários e pesquisadores com o intuito de elaborar e realizar pesquisas, intercâmbios científicos e divulgação de trabalhos de psicopatologia que levem em consideração a dimensão subjetiva do pathos psíquico, constitutivo do humano. Trata-se, portanto, de um grupo de produtores de conhecimento científico e de formadores de opinião com vasta influência e reconhecida responsabilidade social. Fundada em 2002, ela sucedeu a Rede Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, criada em 1996. Berlinck foi membro da WAME – World Association of Medical Editors – e editor fundador da Revista Latino-americana de Psicopatologia Fundamental (RLPF) criada em 1998.

O paradigma pluridisciplinar de Lacan impacta a reflexão quando propõe na melhor tradição filosófica que uma questão só se coloca quando temos a resposta...(Lacan, 1982) Quando ele insiste que a função de a aponta no horizonte futuro, para o infinito; ele está pensando e assim nomeia: 1) na vida, que requer o pequeno objeto a para que a pulsão (de vida) se apresente e 2) é inevitável que diante da impossibilidade de pensar a vida do sujeito na perspectiva da eternidade, a morte seja, como diz Pascal, concretamente um ato de fé; que ele designa como “sonho pascaliano” e pensa na sequência numérica de Fibonacci. (Idem)

No que concerne à Thânatos sugerimos pensar com a chave de leitura que trabalha conteúdos e formas discursivas através da estética; por exemplo, a literatura. (Cerqueira Filho, 2013). Em trabalho, intitulado Sufoco nas Alturas: sobre Páramo, de Guimarães Rosa, Gisálio Cerqueira Filho propõe uma interpretação sobre o conto de João Guimarães Rosa. O conto foi publicado post-mortem, sendo a primeira edição em 1969. Nele, anos após a experiência vivida na Alemanha sob o nazismo, o autor conduzirá o leitor ao coração da recordação traumática: um encontro com a morte. Sim, um “encontro com a morte. Não a morte final – equestre, ceifeira, ossosa, tão atardalhadora, mas a outra, aquela”. A morte aqui veste o semblante do sofrimento psíquico (pathos) intensamente vivenciado no soroche, o mal das alturas, em função do ar rarefeito nas altitudes dos Andes colombianos para onde fora transferido, depois da experiência como diplomata brasileiro detido na Alemanha em campos à espera das permutas entre governos, de cidadãos brasileiros e alemães; mas também na depressão profunda experimentada a partir daquele período de autoritarismo vivo (ethos) da Alemanha em guerra e expresso em números genocidas. A abordagem propõe um entrelaçamento entre história, cultura política e método clínico. Aqui se dá um efetivo encontro entre subjetividade e política; entre o afeto e o poder.

Nesta mesma lógica de raciocínio, interpretamos que o rompimento das barragens “à montante” da mineradora Vale do Rio Doce não foi exatamente um acidente, mas um ato político, movido pelo interesse econômico do grande capital. As mortes e o sofrimento (pathos) dos moradores de seu entorno, constitui uma ferida aberta pela experiência com o medo e a morte.

Este o sentido do frágil absoluto, trabalhado por Slavoj Zizek (2001) em The Fragile Absolute – or, why is the christian legacy Worth Fighting for? Neste pequeno grande livro, o filósofo indaga sobre vitimizações em todos os cantos do planeta advindas das várias faces do espectro do capital que confronta o espectro revolucionário (ainda ele) enunciado do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels. As vulnerabilidades dos trabalhadores e sua exploração extremada e de ecossistemas degradados pela exploração sem medida do avanço capitalista, compreendidos sob a ótica da mais-valia e do mais-gozar, desvelam as práticas políticas de governos, governantes, empresas corporativas e seus gestores em evidência de situação de extrema perversão.


Referências

Azevedo, Ana Lúcia. O Globo (impresso) 03/02/2019, p. 9.


Cerqueira filho, Gisálio. “Corpo e Alma no Sertão: as veredas de Rosa”. (Relatório de pesquisa, work in progress, Niterói: LCP-UFF, 2018.


Cerqueira Filho, Gisálio. Sufoco nas alturas: sobre Páramo, de Guimarães Rosa In Passagens. Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica, Rio de Janeiro: vol. 5, n. 2, maio-agosto, 2013, p. 168-204 DOI 10.5533/1984-2503-20135201


Cerqueira Filho, Gisálio. A questão social no Brasil: crítica do discurso político. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1982, Coleção Retratos do Brasil, vol 162.


Davis, Mike. Holocaustos coloniais. Clima, fome e imperialismo na formação do terceiro mundo. Rio de Janeiro: Record, 2002.


Freud, Sigmund. Obra completa. Madrid: Editora Biblioteca Nueva, 3 vol, 1972.


Harvey, David. A condição pós-moderna, São Paulo: Editora Loyola, 1992.


Lacan, Jacques (2003). Outros Escritos. Tradução Vera Ribeiro; versão final Angelina Harari e Marcus André Vieira; preparação de texto André Telles, Rio de Janeiro: Zahar, p. 11-25.


Lacan, Jacques. La Psychanalyse reinventé et la conférence de 1972, de Louvain. Film de KAPNIST, E. Écrit avec ROUDINESCO, E., Dolby Digital Stéreo, 1982.


Lacan, Jaques. Le Séminaire XVI, D’um Autre à l’autre (1968-1969). Texto estabelecido por Jacques Alain Miller, trad, Vera Ribeiro, Rio de Janeiro: Zahar, 2008, p. 29.


Lacan, Jacques. O triunfo da religião, precedido de discruso aos católicos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005.


Marx, Karl & Engels, F. A Ideologia Alemã. Barcelona: Grijalbo, 1974.


Marx, Karl (1867). O Capital, Secção III do Livro primeiro, Cap. V (“A produção da mais-valia absoluta”).


Neder, Gizlene. “Casamento perfeito”, cultura religiosa e sentimentos políticos. Passagens: Revista Internacional de História Política e Cultura Jurídica, v. 8, p. 3-20, 2016 a.


Neder, Gizlene. Globalização, Violência e Direitos. Revista de Estudos Criminais, Porto Alegre, v. 3, n.1, p. 9-22, 2003.


Neder, Gizlene. “Secularização da lógica punitiva: Psicologia histórica, cultura jurídica e sentimentos políticos”, In As Reformas Políticas dos 'Homens Novos" (Brasil Império: 1830-1889), Rio de Janeiro: Revan, 2016 b, p.117-187.



RecalcatI, Massimo. A questão preliminar do Outro que não existe, Latusa Digital, ano 1 – N° 7 – julho de 2004, p. 12. Tradução Anamaria Lambert.


Taboada Terán, Nestor. Manchay Puyto: El amor que quiso ocultar a Dios, Buenos

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Zizek, Slavoj. Eles não sabem o que fazem: o sublime objeto da Ideologia. Rio de Janeiro: Zahar, 1992.


Zizek, Slavoj. Multiculturalismo o la logica cultural del Capitalismo Multinacional. Buenos Ayres: Espacios del Saber,1997.


Zizek, Slavoj. The Fragile Absolute – or shy is the christian legacy Worth fightinh for?, Londres/Nova York, Verso, 2001.

[1] Gisálio Cerqueira Filho é sociólogo e cientista político. Doutor em Ciência Política (Universidade de São Paulo) e Professor Titular em Teoria Política (Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal Fluminense). Pesquisador Sênior na AUPPF (Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, São Paulo) e no LCP-UFF (Laboratório Cidade e Poder da Universidade Federal Fluminense). [2] Gizlene Neder é historiadora e cientista política. Doutora em História (Universidade de São Paulo), Professora Titular em História (Programa de Pós-Graduação em História e Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Política). Pesquisadora do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e da FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro). Coordenadora do LCP-UFF (Laboratório Cidade e Poder da Universidade Federal Fluminense). [3] Tais números iam sendo atualizados diariamente. https://oglobo.globo.com/brasil/bombeiros-dizem-que-buscas-podem-ser-encerradas-sem-resgate-de-todos-os-corpos-em-brumadinho-23426069. [4] Vinte e dois dias após o sinistro rompimento da barragem, em 16/02/2019, foram contabilizadas 166 mortes e 144 desaparecidos. [5] Cf. o sítio da OIT Brasília: https://www.ilo.org/brasilia/temas/trabalho-escravo/lang--pt/index.htm [6] Azevedo, Ana Lúcia. Assim inicia a jornalista, evocando o escritor mineiro de Grande Sertão: Veredas, no seu artigo “Dano ambiental ameaça centenas de espécies – área afetada era de Mata Atlântica” publicado em O Globo, 03/02/2019, p. 9.


 
 
 

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