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O mundo marcha para a guerra?

  • Gisálio Cerqueira Filho
  • 29 de mar. de 2021
  • 9 min de leitura

Gisálio Cerqueira Filho


Talvez a melhor expressão fosse “o mudo voa para a guerra”, pois tudo está acontecendo tão rapidamente, e ainda por cima, na presença de uma pandemia vigorosa, mas de dimensão mundial e que vem acompanhada de um expressivo número de mortes.

O instante político que vivemos assusta, se formos parar para muito pensar. Eu diria que estamos vivendo um momento de convulsão de ideias que compartilha novidades tecnológicas em massa na economia: produção, comércio, serviços; na cultura, na política, no direito, etc. Conflitos nos espreitam e nem sempre temos condições para integrar o micro e o macro dos acontecimentos. A “guerra fria”, que já não vivemos, entre EUA e União Soviética, fazia-nos acreditar em equilíbrio e controle. Entretanto, agora estamos vivendo uma conjuntura de desequilíbrio e descontrole, tanto no macro quanto no micro da política (a microfísica do poder, de Michel Foucault) [1].

Hoje temos mais desigualdade social e também diversidade. Todavia, no futuro, muito provavelmente teremos menos hierarquia, obediência cega e mais horizontalidade, daí a necessidade de pensarmos, sem simplismos, a complexidade que a realidade nos impõe. Mas devemos levar em conta que o simplismo e suas tintas ideológicas [eu/ele; amigo/inimigo; ódio/paixão] não se confunde com simplicidade... Frequentemente, os conceitos políticos têm deixado a desejar, pois não respondem à complexidade que estamos a viver. Isto implica de modo simultâneo em mais transdisciplinaridade do pensamento na busca de um paradigma estético-expressivo, capaz de sintonizar-se com a sensibilidade artística e ação transformadora. Do ponto de vista subjetivo não é desconhecido pelos estudiosos, estados mórbidos (Tânatos) que disputam com Eros a primazia no dia-a-dia. Sintomas de insônia são relatados e acompanham síndromes de pânico, anorexia, bulimia, etc. e, como se não bastasse, aí está a pandemia do vírus covid-19 a promover o medo, a melancolia e mesmo a depressão [2].

Assim, é compreensível revivências e rememorações entre o que se passa hoje nos EUA, o lema BLACK LIVES MATTER já é em si bastante forte, e o que se passou, por exemplo, na guerra dos Balcãs ...


“no início do verão de 1992, ao passar pelo zumbido dos caminhões do necrotério estacionados em frente ao hospital de nosso bairro, lembrei de minhas frequentes peregrinações à morgue de Sarajevo enquanto as pessoas procuravam por familiares desaparecidos durante a guerra, há mais de um quarto de século. Não consigo acreditar que foi há tanto tempo assim. Vendo o que está acontecendo nos EUA, imagens da guerra da Bósnia e dos anos de meu passado vivendo em meio às guerras civis de outras pessoas se infiltraram em minha vida diária e insone. Quais foram os incidentes que aceleraram o processo? Quais foram os sinais? Quando a raiva e o medo se transformaram em violência? Como o medo derrotou a esperança? Havia alguma medida que pudesse ser codificada? Acho que ainda não chegamos lá. Na verdade, não consigo acreditar que algum dia chegaremos lá...” [3]


Algumas vezes me interrogo se invasões da Polícia Militar do Rio de Janeiro com homens blindados, cães, muitas armas, helicópteros e a parte da comunidade que os rechaça, também com muitas armas, não conferem cada vez mais um clima de guerra que não fica atrás de muitas outras coberturas jornalísticas.

Eu, pessoalmente gostava de estudar a Iugoslávia no tempo da luta dos partisans contra o nazismo. Perguntava-me como muçulmanos, cristãos ortodoxos, católicos, judeus, ateus, todos unificados na Iugoslávia de então sob a liderança anti-stalinista de Josip Bróz Tito. Todavia, nos anos 90 do século XX), me causava perplexidade a hipótese de uma guerra civil entre croatas, sérvios, bósnios... E, uma ocasião, flanando em Paris comprei alguns volumes sobre a Iugoslávia da “resistência”, com fotos espetaculares que demonstravam uma resiliência popular que iria levar à unificação. Quase meio século depois, o rebuliço voltava intenso. E esta parte da Europa Oriental ou do Leste, vivia uma conjuntura de ambivalência afetiva tanto no que se refere à macro-política quanto à micro-política. Alguns levantavam bandeiras de autonomia e independência.

Em abril de 1992 a população de Sarajevo, nas ruas, Rubin ainda acreditava que a paz era possível. Porque eles desejavam e queriam paz. A guerra não haveria de chegar, não podia chegar. Elizabeth Rubin, jornalista presente naquele cenário assim observa:


“Um escritor e boxeador bósnio-croata que eu conhecia e que ficou para defender a cidade me disse que seu melhor amigo estava do outro lado, com o exército sérvio da Bósnia. Durante o dia, eles atiravam um no outro. De noite, conversavam no telefone e choravam. Ismet Ceric, o responsável pelo setor de psiquiatria do principal hospital de Sarajevo, foi o chefe de Karadzic por 20 anos. Ele me disse que no mesmo dia que Karadzic ordenou o bombardeio de Sarajevo a partir das montanhas, o político telefonou para a mãe de Ceric em Sarajevo. “Ele ligou para desejar um feliz Bajram”, contou Ceric, referindo-se ao festival muçulmano que vem após o Ramadã. Ceric então perguntou: você consegue acreditar nisso? Sim, infelizmente eu conseguia. Karadzic era tão obcecado por Ceric que seguiu seu antigo chefe pela cidade nos três anos seguintes, com morteiros e granadas. É difícil dizer se Karadzic queria matá-lo, provocá-lo, ou se Ceric pensava que poderia haver um Karadzic por trás de cada tiro que passava perto do alvo”...[4]


Mais adiante:


“Ratko Mladic — o carismático comandante militar sérvio da Bósnia que se tornaria notório por liderar o massacre de 8 mil homens e meninos em Srebrenica — estava recrutando soldados para seu exército separatista”. [5]


Se destacamos o Massacre de Srebrenica, também conhecido como o Genocídio de Srebrenica, estamos diante do maior evento genocida do pós 2ª Guerra Mundial com o assassinato de até 8.373 muçulmanos bósnios ocorrido entre 11 a 25 de julho de 1995. Entre eles estavam de adolescentes a idosos, com idades variadas, na região de Srebrenica, município no leste da Bósnia e Herzegovina. Entre as principais motivações, estavam os sentimentos e afetos anti-Bósnia, o auto-declarado sentimento pela “Grande Sérvia”, a partir de uma política de “limpeza étnica”, “Islamofobia”, tudo isso acompanhado de forte desejo de presença massiva da Sérvia nos Balcãs no território que um dia foi a Iugoslávia unificada, com capital em Belgrado.

Acompanhamos a reflexão de Elisabeth Rubin, pois houve um revival e não apenas nos EUA de hoje com o supremacismo branco, surgiram os “Chetniks com “reencarnações das velhas guerrilhas nacionalistas que fizeram aliança com os nazistas na Segunda Guerra para realizar seu sonho de uma Grande Sérvia”. Radovan Karadzic, o líder político sérvio-bósnio, era um grande admirador dos Chetniks. Em sua honra, ele jurou que os muçulmanos da Bósnia queimariam no inferno se o país declarasse independência.

As imagens de homens com longas barbas, “munições no peito, rifles automáticos e uma mistura de símbolos do poder branco - suásticas, bandeiras confederadas, forcas, emblemas de uma flecha atravessando um crânio e as palavras “morte” e “vitória” - exatamente como uma cabala de Chetniks [6]. Nada a dever a grupo similares que vem se espalhando em várias partes do mundo. Eles se mobilizam como o vento graças aos seus amigos virtuais. Eles enviam mensagens tipo “algum patriota disposto a pegar em armas para defender sua cidade?” Isto se passa em Kenosha, em Minnesota e eles ameaçam linchar e decapitar o governador de Michigan, pouco antes do ativismo do ex-presidente Barack Obama e das eleições que deram vitória a Joe Biden e Kamala Harris contra Donald Trump.

Pois o Brasil vai deslizando para este campo de rixas, brigas e disputas, muitas delas aparentemente desacreditadas e outras cravadas no ódio e na busca de um suposto “inimigo” ainda que fabricado, O comunista démodée é então substituído eventualmente por um ambientalista que luta pela ecologia, por um negro que apurou a sua consciência étnica e política e morador de uma favela no Rio de Janeiro (recordemos o brado BLACK LIVES MATTER (VIDAS NEGRAS IMPORTAM). No aqui e agora que vivemos, o inimigo pode vir perigosamente forjado na figura do indígena que vive no Brasil, mas também na Bolívia, no Equador, no Peru, como povos originários das Américas. E já estamos diante de uma fileira de inimigos distinguidos pelo sexo, sexualidade, desejo, religião, etnia, cor da pele e pelo quer que seja... A violência mapeia o inimigo político a partir da ideologia e da concepção do Estado schimitiano. As armas surgem no cenário como por encanto e se cobrem pela justificativa do livre arbítrio, da liberdade, da defesa pessoal e coletiva. Mas de fato, não estaríamos hoje diante de disputas, rixas, que podem se transformar em conflitos capazes de levar à guerra civil? Alguns ingredientes podem ser nomeados: condições apropriadas ao conflito armado, lideranças carismáticas. Acrescente-se uma agenda bem planejada, obediência irrestrita aos líderes e medo. E especialmente se uma crise econômica está presente. A Viena da virada dos séculos XIX / XX ficou na história como sinônimo de crise perseguições e desconforto [7], com desdobramentos para Budapest, conduzindo ao fim do império Austro-Húngaro. Weimar, Berlim, também espelham a crise alemã que conduzirá o mundo ao nazifascismo e a 2ª Grande Guerra. O impacto será forte na Espanha franquista, em Portugal salazarista, sem poupar o norte da Europa [8], nem o leste europeu. O ocorrido na Alemanha talvez possa nos levar, talvez, a um último ingrediente que reúne todos os outros: a redução da história e todas as suas complexidades a uma narrativa de destino coletivo - o nosso contra o deles, nós contra eles, com forte apelo afetuoso [9].

Extremistas do poder branco bem armados são agora plenamente conhecidos. Seus atos violentos são consagrados nas redes sociais e marcados pelo silêncio do presidente Donald Trump. Eles têm novos líderes carismáticos. Eles têm objetivos claros. Eles têm uma narrativa de queixas históricas e um destino compartilhado: o poder branco. Eles têm as bíblias dos supremacistas brancos. Suas teorias conspiratórias muitas vezes vinculam-se às teorias negacionistas e terraplanistas conferindo um simplismo esmagador à complexidade no avançar das nossas relações mediadas pelas redes sociais e telemóveis cada vez mais sofisticados. De fato, estamos vivendo uma conjuntura política que merece uma reflexão à altura da complexidade da hora presente. Reflexão esta que possa fluir para a população interessada na democracia do conhecimento e num conhecimento democrático. O simplismo e suas tintas ideológicas não devem se confundir com questões complexas, que não respondem heuristicamente à realidade [10]. Os conceitos políticos deixam a desejar quando não respondem à complexidade do que estamos a viver.

Hoje temos mais diversidade, a desigualdade social tem presença mais efetiva e convive com uma distância colossal dos endinheirados que, cada vez mais, refugiam-se- nos seus condomínios-esconderijos.

No Rio de Janeiro, por exemplo, que possui amplo parque de ciência & tecnologia que vem sendo corroído, não conseguindo impedir sequer a sua degradação, assiste o avanço da financeirização da economia. A questão da inovação tecnológica avança sem qualquer política de disseminação e controle visando a garantia da democracia do conhecimento.

As armas liberadas vão tomando conta da cidade que confronta seus desejos com o surgimento de milícias, cuja denominação já é em si, um apelo à organização de grupos paramilitares ilegais, tal qual aconteceu em outros países da América Latina, mas também em outras áreas no mundo.

Todavia, e por outo lado, o Brasil corre grande risco e não pode esperar tão mais para o leilão do 5G, já adiado para 2021. O debate põe no centro das expectativas se a Huawei será ou não previamente excluída e por razões mormente ideológicas. Mas o Brasil já anunciou seu apoio ao Clean Network que concretamente dificulta e limita o avanço da tecnologia de empresas chinesas no 5G. No dia 11 de novembro de 2020 a Suécia suspendeu o anunciado leilão, após a Huawei obter uma liminar na justiça que suspendeu as restrições à sua participação. A judicialização já posta, pode ser atribuída sem dúvida à competividade e interesses da Ericsson local, empresa sueca, fortíssima neste campo tecnológico ou mesmo da finlandesa Nokia. Mas isso pode não bastar, pois os argumentos ideológicos sempre estão à espreita. De qualquer modo, isto ocorre num momento de transição política Joe Biden / Donald Trump num contexto complexo de mudança de governo. A judicialização não interessa certamente a Huawei, mas ela tem a disposição necessária fortalecida pela acolhida que tem, ou julga ter, dos seus clientes no Brasil. Em caso, de barreiras robustas à Huawei, muitos especialistas da área da telefonia julgam iminente o risco de paralização. Evidentemente que o Brasil não é a Suécia, não tem aqui uma empresa nacional que competitivamente aspire ao leilão. Entretanto, é considerado o 5º quinto maior mercado mundial de telefonia celular e certamente pode aprender com a judicialização tanto lá, como cá; embora aqui seja uma hipótese.

Não há dúvidas que Brasil e China são parceiros estratégicos globais, aliás, tanto quanto os EUA; isto, entretanto, não autoriza barreiras e restrições prévias a um leilão que, nesse caso, leilão não seria. Se olharmos para a forma como o Brasil e os EUA lidaram com as questões referidas à pandemia do covid-19, sempre emolduradas por constante judicialização, com perdas e danos em vidas alcançando números superlativos. O mesmo voltando a ocorrer no caso das vacinas contra o corona-vírus, impõe-se ao menos pessimismo político no caso do acesso ao 5-G.

No âmbito da nossa reflexão já ocorre uma guerra, para muitos a “guerra fria da tecnologia na economia” num mundo que dela, tecnologia, não pode prescindir. Será que ela pode, no plano global, servir de justificativa, embora não única e exclusiva, para o mundo iniciar a sua marcha para uma guerra quente?

Como diz Carlo Ginzburg discutindo o autoritarismo em conferência intitulada Medo, Reverência, Terror: reler Hobbes hoje, “um futuro hipotético que, esperamos, não se verifique jamais” [11].


*Publicado originalmente em 22/12/2020.

[1] Sobrevivência e negação, Elizabeth Rubin. https://theintercept.com/2020/10/31/guerra-nos-balcas-eua-hoje/. Acessado em 20/20/2020.


[2] Idem.

[3] Idem.


[4] Idem.

[5] Idem.

[6] O movimento Chetnik ou Chetniks, cujo termo quer dizer Exército Iugoslavo, foi uma organização paramilitar nacionalista e monarquista sérvia que atuou nos Balcãs antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Em 1941, a Iugoslávia foi derrotada pela Alemanha Nazi e ocupada pelas potências do Eixo até 1945.

[7] CERQUEIRA, Marcelo Neder. O homem desconfortável: poder e modernidade em Arthur Schnitlzer. Curitiba: Editora Prismas, 2015.

[8] Entre outros veja -se CERQUEIRA FILHO, Gisálio. Estridente Strindberg. Edição bilingue português-alemão. Rio de Janeiro: Editora NPL, 2008. Inclui a obra “O Pai” de Auguste Strindberg, traduzida do inglês para o português.

[9] CERQUEIRA FILHO, Gisálio. Autoritarismo afetivo: a Prússia como sentimento. São Paulo: Editora Escuta, 2004.

[10] INNERARITY, Daniel. The democracy of knowledge. New York; London: Bloomsbury Academic, 2013.

[11] Realizada em 18/09/2006, sob os auspícios do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, Brasil, por iniciativa da Dra. Gizlene Neder. Tradução do italiano por Luiz Fernando Franco. Dr. Guilherme Pereira das Neves colaborou para esta versão final do texto em português. Foi publicada pela Editora Companhia das Letras.


 
 
 

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