O Sul se movimenta: podemos sonhar na América Latina?
- Gisálio Cerqueira Filho
- 29 de mar. de 2021
- 4 min de leitura
Gisálio Cerqueira Filho [1]
Para o querido
Professor Titular
Doutor Geraldo de
Bauclair (1934-2019)
in memorian.
As vitórias eleitorais expressivas e recentes do MAS em Bolívia e da esquerda chilena por nova constituição, assim como por uma assembleia constituinte, trouxeram ânimo para uma Sulamérica imaginada [2]. E isto nas vésperas das eleições nos EUA onde o protagonismo entre democratas e republicanos elevou as contradições e mazelas a grau inimaginável a ponto de muitos articulistas, jornalistas, cientistas sociais, que acompanham o instante pré-eleitoral na sociedade norte-americana já falarem em guerra civil, fratura social e que tais. Agora, sob o impacto da vitória de Joe Biden & Kamala Harris nos EUA e também na expectativa diante do que pode acontecer com a postura de Donald Trump
Assim que o NOS (Núcleo Observando o Sul) retoma suas atividades visando esclarecer e discutir questões relevantes neste momento singular que vivemos, A pandemia do covid-19 com a quarentena e o relativo isolamento social que tod@s temos vivido, tem suscitado novas reflexões, rodas de conversa e escritos vigorosos à luz do momento político que estamos vivendo na Amárica Latina. Não imaginemos que será possível realizar acordos do Mercosul com a Comunidade Europeia, se não estivermos nós mesmos, sulamericanos e do Caribe, irmanados na nossa latinidade, e que já alcança vários pontos dos USA (United States of America). Parodiando o Papa Francisco, argentino de nascimento, “Fratelli Tutti”...
Nesta retomada de atividades queremos conversar com o leitor acerca de uma vivência expressiva no campo do cinema que vivemos na Associação Cristã de Moços (ACM) do Uruguai, em Montevidéu. Tratava-se de um filme documentário do cineasta chileno Patrício Guzmán, nascido em Santiago de Chile em 1941 e com uma forte presença na direção de filmes como Salvador Allende, La Batalla del Chile [trilogia La inssurección de la burguesia (1975); El Golpe de Estado (1977); El Poder Popular (1979). Também, Nostalgia de la luz (2010), El Botón de Nacar (2015), La Cordillera de los sueños (2019), entre outros. Sempre tratando do golpe político de Augusto Pinochet e de suas consequências, da tortura, das perseguições, assassinatos e dos muitos desaparecidos...
No caso que vamos narrar, eu e minha companheira estávamos participando de um encontro de História Econômica na capital uruguaia, em 1996 quando passamos em frente a uma pequena sala de cine que chamava atenção para um documentário sobre o Chile em exibição naquele sábado. Não conhecíamos ainda Patrício Guzmán e decidimos ver o documentário. A entrada era gratuita e o anúncio era de um curta que seria então exibido na ACM de Montevidéu. A sala era pequena, mas estava lotada, com cerca de umas 60 pessoas presentes e o filme havia começado há minutos. Não houve tempo para sequer tomarmos ciência da plateia presente. Sentamo-nos de imediato e já estávamos em Chile...
O filme apresentava La Alameda, como é conhecida em Santiago a Avenida Libertador Bernardo O”Higgins, o herói independentista chileno. Era um dia de muito comércio e vendas por ocasião da proximidade das festas natalinas. Um dia bastante movimentado de compras de última hora. Comerciantes gritavam e faziam propaganda de seus produtos e os passantes da Av. Alameda paravam para avaliar as ofertas ou simplesmente apreciar o frenesi do comércio. Algumas lojas pagavam pequenas bandas musicais para entreter o público com música popular. O filme propositalmente apresentava então um pequeno grupo de rapazes e moças, instrumentistas que tocavam o hino da “Unidade Popular” de Salvador Allende.
Os pedestres, jovens e não tão jovens assim, passavam apressados, davam alguma breve parada, e seguiam adiante. Muitos transeuntes de terno e gravata. Por vezes, sequer paravam. Davam uma olhada naquele alvoroço seguiam seu caminho apressados. Todavia, no auge das músicas comerciais, algumas delas natalinas, e tocadas pela banda, pessoas visivelmente mais velhas, idosas mesmo, paravam, olhavam aquele burburinho e função, aguardando como que pensativos. Em poucos minutos estavam a chorar discretamente, assoar o nariz, baixavam a cabeça em respeito obsequioso, tomavam de algum lenço e enxugavam as lágrimas.
O silêncio falava e calava fundo... A câmera de cine capturava imagens que inesperadamente comoviam. Nós que assistíamos o filme, sem nos dar conta ainda que a música era o hino da “Unidade Popular”. Foi então que percebemos um murmúrio na pequena sala de projeção e o choro pareceu deslocar-se da Alameda para a saleta, com novos choros, tosses, engasgos e, por fim, algumas palavras que identificavam a música e a relação com a “postura política de Salvador Allende e da Unidade Popular”...
A luzes logo estavam acesas, o documentário já terminara. Do ponto de vista emocional, parecíamos ter assistido a um filme longo, de forte impacto. Patrício Guzmán, presente, apresentou-se, com muita simpatia, e passou a receber felicitações; muitos parabéns pelo filme e nós pudemos conferir que maioria dos presentes eram idosos, que logo se apresentaram como parentes das vítimas torturadas, prisioneiros políticos, mortos pela ditadura, outros desaparecidos. Lambiam suas feridas. Lambíamos nossas feridas.
Quinze minutos após esta breve catarse, a cerimônia estava encerrada e todos se retiravam fungando e conversando baixinho...
Não pude deixar de recordar este momento do passado bem recente, quando multidões de chilenos saíram às ruas para comemorar a vitória contra a Constituição de Pinochet e pela eleição de uma Constituinte exclusiva para deliberar sobre o futuro de Chile. E cantando, em boa voz e afinados, a música da “Unidade Popular”. O povo festejava com os milhares de dezenas de seus telefones celulares a tocar a música preferida das passeatas.
E logo a lembrança de Allende nos ressurgiu das cinzas como fênix ...
* Artigo publicado originalmente em 10/11/2020.
[1] Gisálio Cerqueira Filho, Professor Titular de Teoria Política na UFF. Foi aluno da Escuela de Verano (1967/1968) na Universidad de Chile, em Santiago e Presidente do Fórum Universitário do Mercosul – FoMERCO.
[2] CERQUEIRA FILHO, Gisálio (Org.). Sulamérica: comunidade imaginada emancipação e integração. XI Congresso Internacional do Fórum Universitário do Mercosul - FoMerco), Buenos Ayres, 2010, Niterói: EdUFF, 2011.





Comentários