Psicoterapia de grupo e ideologia [1]
- Gisálio Cerqueira Filho
- 14 de jun. de 2021
- 4 min de leitura
Gisálio Cerqueira Filho
1. (Des)conhecimento da ideologia e (re)conhecimento da ideologia
As relações entre indivíduo/sociedade no interior da prática da Psicanálise enquanto técnica terapêutica aparecem de forma mais incisiva na chamada psicoterapia grupo-analítica.
O fato do grupo se constituir sobre o fundamento da comunicação verbal não anula o fato principal de que o objetivo do tratamento é o membro individual. Todavia, o principal agente terapêutico é o grupo e por extensão a “matéria-prima social” de que ele é portador. Não que o indivíduo não seja portador, em si mesmo, do que estou chamando de “matéria-prima social” (isto é, a ideologia); mas que a comunicação verbal instauradora do grupo como tal facilita a expressão do social, não tenho a menor dúvida.
Se por um lado estou me referindo à expressão do social em termos da ideologia, por outro lado, estou entendendo ideologia enquanto representação da relação imaginária dos indivíduos com suas condições de existência. Ela não só reconstrói no plano imaginário um discurso relativamente coerente que serve de horizonte ao plano do vivido quanto nos instala num terreno histórico e social preciso e determinado. Nesse sentido podemos dizer que o efeito de sujeito é preponderante na ideologia, uma vez que é ela que provoca no sujeito a ilusão de viver a sua “condição na ideologia” como condição natural. Mias do que isto, é a ideologia que institui o sujeito enquanto tal (também denominado sujeito-suporte) através da constituição de um sistema de representações que atuam funcionalmente sobre os homens mediante processos que lhes escapam porque são inconscientes. A cada momento, no dia a dia, recorremos necessariamente a um código que é a interiorização inconsciente da ideologia de uma sociedade e uma classe social. Um tal código é mais um pressuposto (pré-texto, pretexto) do que propriamente uma postulação explícita e coerente das categorias de pensamento que fundamentam nossa apreensão do mundo. A ideologia tem assim um efeito duplo de conhecimento/desconhecimento do real.
“Aqueles que estão na ideologia se creem fora dela por definição: um dos efeitos da ideologia é a negação prática do caráter ideológico da ideologia, a ideologia não diz jamais: sou ideologia; é necessário estar fora da ideologia (em termos relativos), é dizer, no conhecimento científico, para dizer: eu estou na ideologia – caso excepcional – ou – caso geral – estava na ideologia (em termos relativos).”[2]
Na prática da psicoterapia, a ideologia não está exclusivamente relacionada com a prática do analista em si e com uma representação de mundo que acompanha todas as suas atitudes. Ela está em primeiro plano na configuração e na instituição do grupo terapêutico enquanto grupo social. Nesse sentido podemos afirmar que o maior número de encontros do grupo analítico (sessões) possibilitará a presença mais densa da ideologia enquanto “expressão social”. A ideologia é então considerada como a cena principal onde o terapeuta opera com os seus conceitos.
2. Conhecimento da ideologia
Reconhecer o importante papel da ideologia tanto na instituição do grupo como na configuração do sujeito não significa conhecer os seus mecanismos de funcionamento. Não se trata aqui de demonstrar a ilusão da neutralidade axiológica na neutralização da ideologia. Queremos propor uma teoria que exatamente não desconhecendo a presença da ideologia, não só a reconheça como inevitavelmente presente quando aponte na direção do conhecimento tanto de suas determinações quanto de seus efeitos.
Uma teoria das ideologias deve explicar o processo que (desde a estrutura social global, através dos aparelhos ideológicos de Estado e a partir das práticas sociais concretas em que um indivíduo se ache enquadrado em função da sua inserção no processo de produção) determina um universo de significações que causa impacto no sujeito, que, por sua vez, o elabora com sua estrutura psíquica (ressaltamos aqui o sistema do inconsciente) dando como resultado uma ideologia internalizada.
A partir daí acreditamos na possibilidade, a nível técnico, da análise de cada efeito ideológico em sua dupla determinação: individual e social em relação com o sujeito. Essa seria uma tarefa para o terapeuta com amplos conhecimentos acerca da estrutura de uma formação social concreta numa perspectiva histórica ou para o sociólogo com formação psicanalítica (como teoria/técnica terapêutica/método e técnica de investigação) e amplos conhecimentos da psicoterapia de grupo. Ou ainda, quem sabe, teríamos a possibilidade do trabalho conjunto e simultâneo do analista e do sociólogo enquanto profissionais distintos, porém presentes, e capazes de explicar as distintas situações que aparecem no contexto clínico da psicoterapia de grupo. Isso poderia permitir, além da indicação de questões mais precisas, a catalogação de um material clínico que possibilitasse respostas adequadas para a internalização (inconsciente) da ideologia de uma sociedade, de uma classe social.
No Brasil, estamos estudando dois pontos relacionados com a ideologia e hegemonia burguesas: 1) o autoritarismo, isto é, a absorção de uma visão autoritária de mundo por parte inclusive da práxis liberal; 2) a maximização, a nível ideológico, da conciliação e do sistema do favor (sistema de clientela e de troca de favores recíprocos).
[1] Apresentado originalmente no VII Congresso Internacional de Psicoterapia de Grupo, na Universidade de Copenhagen em agosto de 1980.
[2] ALTHUSSER, Louis. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. Lisboa: Editorial Presença, 1970.





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