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“O Mostrengo” de Fernando Pessoa:Resistência ao imperialismo em paralaxe (para Ernesto Che Guevara e Patrice Lumumba

  • Foto do escritor: NOS - Núcleo Observando do Sul
    NOS - Núcleo Observando do Sul
  • há 1 dia
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Atualizado: há 4 horas


Gizlene Neder


Findo o primeiro quartel do século XXI e desde a década de 1970 do século XX), a comunidade internacional está vivenciando verdadeiro circo de horrores. A reação conservadora às guerras de libertação nacional na África e, na América Latina à Revolução Cubana, vitoriosa em 1959, tem sido implacável e violenta.

A dimensão do aumento da repressão política (guerras, ditaduras, assassinatos, execuções) vem se refletindo no aumento exponencial da tensão política no cenário internacional diante da escalada do imperialismo norte-americano. Genocídio de palestinos televisionado para todo o mundo (diante de governos ditos “democráticos” passivos); mentiras midiáticas plantadas a justificar invasões, sequestros ou execuções de governantes não-alinhados[1] aos interesses e à ganância do capital imperialista; saques de navios comerciais com matérias-primas a recordar a conjuntura da acumulação primitiva de capital dos séculos XV/XVI; repetições exaustivas de julgamentos judiciais de lideranças não-alinhados sem provas de que possuem armas letais proibidas ou que sejam ligados ao narcotráfico (tudo também midiatizado).  

        O avanço destas práticas contém alto nível de perversão (usando o conceito trabalhado pelo campo da Psicanálise), analisado pelo filósofo Slavoj Zizek em vários de seus textos, que desdobram do debate sobre a “razão cínica” e a identificação da perversão como práticas abusivas e violentas sem um tantinho que seja de culpa ou contenção de abusos (“eles sabem o que fazem e ainda sim fazem”)[2].

Convém, portanto, lembrar as lutas de resistência política promovida por aqueles que enxergaram na década de 1960 o tamanho da fúria do imperialismo europeu/norte-americano. Pensaram a saída internacionalista para a América Latina, e para a África (o panafricanismo). O vanguardismo internacionalista de Ernesto Che Guevara e Patrice Lumumba, pensadores políticos de formação intelectual primorosa e criativos, emergiu em uma conjuntura de hegemonia de nacionalismos ainda inspirados no romantismo do século XIX. Para muitos de seus contemporâneos, alguns do próprio campo da esquerda, este internacionalismo era visto como utópico, ou um radicalismo descabido ou romântico.

No caso da América Latina, a título de exemplo, nem a via eleitoral do Chile que elegeu o socialista Salvador Allende (considerada ‘democrática’), nem o foquismo (guerra de guerrilha, estratégia guevarista) alcançou êxito político.

Em nossa interpretação, os processos de circulação de ideias e apropriações culturais não são lineares. São ao mesmo tempo efeitos de escolhas políticas e intenções, e emergem das deliberações que emolduram suas práticas sociais e políticas. Tanto as subjetividades envolventes quanto a dialética do processo histórico implicam, entretanto, apropriações indiretas e contraditórias. Neste sentido, pensamos que o que parecia ‘utópico’ ou ‘romântico’ na década de 1960, preferimos nomear de vanguardismo político. Uma parte visível da condição colonial latino-americana e africana lhes permitiu pensar o internacionalismo. Este não se espelha exatamente o internacionalismo das Internacionais do século XIX, a não ser como inspiração. Resultam do sofrimento inaudito que o imperialismo europeu-norte-americano a que estiveram (estão ainda) submetidos os povos de América Latina, África e Ásia.

Não por acaso, as fotos de Lumumba e Che Guevara quando presos pelos agentes da dominação colonial no Congo Belga e na Amazônia boliviana não ostentam os prisioneiros algemados, mas amarrados com corda, tal como os escravizados africanos ou populações originárias das Américas. A humilhação psicológica faz parte da dominação imperialista, como efeito de demonstração. 

         

  Para Che Guevara e Lumumba, poetas e intelectuais do internacionalismo, aqui vai uma variação imaginada a partir de um poema internacionalista do poeta português, Fernando Pessoa. 

 

O MOSTRENGO

O monstrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tetos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«O Povo Pobre da América Latina e de África!»

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«O Povo Pobre da América Latina e de África»

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o monstrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;

Manda a vontade, que me ata ao leme,

Dos Condenados da Terra

  

[Poema original de Fernando Pessoa]

O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse: «Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?»

E o homem do leme disse, tremendo:

«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?»

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?»

E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,

Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:

«Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu;

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo;

Manda a vontade, que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!»

 


 Referências


[1] Usamos a expressão da década de 1960 de propósito; naquele contexto, o colonialismo provocava as lutas pela descolonização (hoje designadas decoloniais). A atualização histórica da condição de “não-alinhados” implicou em resistência política em movimentos políticos estratégicos nomeados no tempo presente de “Sul Global”. 

[2] ZIZEK, Slavoj. Eles não Sabem o Que Fazem. O Sublime Objeto da Ideologia, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1989, p. 10-31.

 

 
 
 

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